Livre adaptação de um monólogo do livro "Prometeu Acorrentado", escrito pelo grego Ésquilo.
Sentado, de costas para a plateia, com uma garrafa de uísque entre as pernas. No palco há apenas um banco antigo.
Prometeu: Ó Deus, todo poderoso! Meu pai e minha mãe! E todos aqueles a quem um dia dei meu amor e fui rejeitado. Vejam a que ponto cheguei! Vejam todo o sofrimento que abate este pobre homem. Estou preso nestes trajes, estou preso nesta vida medíocre. Ah, meu Deus, será mesmo que não há outra saída? Mas o quê que eu tô dizendo? Como se eu já não soubesse que esse é o meu fim, que isso
(retira do bolso um frasco de comprimidos e começa a tomá-los com a bebida) é o que restou pra mim. E o pior; o pior, meu Deus, é que eu não posso contestar nada. E logo eu, logo eu. Depois de tudo que eu fiz, tanto sangue e suor, tanta dor, tantos sacrifícios que fiz por estas pessoas ingratas. Me diz, me diz o que diabos eu fiz pra merecer isto? Acabar tudo assim, jogado num banco velho e imundo, estendido feito um nada, e não há ninguém aqui comigo. E o quê que há? Apenas esta garrafa.
(fala com a garrafa) Foi sempre assim, não foi? Somente eu e você, nós dois, sozinhos.
(pra plateia) Ninguém ao menos pra rir da minha desgraça, pra rir das inúmeras besteiras que eu falo enquanto covardemente a morte não me livra desta angústia. Não há alguém nem sequer pra rir da minha cara. Mas isso não me é estranho, eu nunca tive amigos, ninguém. Eu nunca nem tive um inimigo, ninguém além de mim mesmo. Vivi pelos outros, vivi apenas para o prazer alheio. Nunca reclamei de nada, mas sempre estive caindo nesse precipício solitário. E o que recebi? Só o desprezível desprezo, a incompreensão geral, e a rejeição total. Eu sei o que pensam, sei que vão dizer que nada justifica, sei que pensam que isto não é necessário, mas vocês nunca se colocaram no meu lugar, este é o mau da desumana humanidade, todos só pensam em si próprios, são piores que porcos, são piores que chacais. Eu tenho vergonha de pertencer a essa grande cagada a que chamam de "civilização".
A culpa disso é toda de vocês, olhem bem para o meu rosto, vejam, isto é por causa de vocês. Já não tenho motivo algum pra ficar próximo de seres tão desprezíveis como vocês. Mesmo assim, hoje tudo me apavora.
(último suspiro, morte)
Por: Jean Rech